Idelzuite Fontes Garimpeiro
Jazida Serra Pelada No município de Curionópolis, no sudeste do Pará, começou a história de vida da enfermeira Idelzuite Fontes. Quando jovem foi proibida de trabalhar.

“A única forma que eu encontrei foi me vestir de homem e todos os trajes de homem. O meu disfarce era boné, o bigode postiço e calça comprida, sempre gostei de calça, camisa. Fiquei assim 8 meses”, contou Idelzuite Fontes.

Idelzuite viveu um dos momentos mais ricos e também trágicos da história de milhares de Brasileiros. Serra Pelada, o maior garimpo a céu aberto do mundo. Mais de 80 mil trabalhadores vieram pra cá.

“Se eu trabalhasse à noite todinha limpando ouro, eles me pagavam a quantia de 8 a 10 gramas de ouro”, disse Zaqueu Ferreira Neto, ex-garimpeiro.

O complexo mineral foi descoberto na década de 70. O documentarista inglês Adrian Cowell filmou por mais de dez anos os milhares de corpos recobertos de barro da cabeça aos pés.

Picaretas na mão, homens vindos do Ceará, do Pernambuco, do Maranhão, de todos os cantos do país enxergavam lá uma chance de melhorar de vida .

“E a senhora conseguiu ganhar dinheiro em serra pelada?”, perguntou a repórter Daniela Assayag.

“Eu não cheguei porque quando estava perto, perto mesmo, próximo de eu pegar bastante ouro, foi a época que o garimpo fechou”, disse Idelzuite.


O formigueiro humano ficou para trás, histórias de vida enterradas. No lugar onde funcionava o garimpo, agora é um imenso lago que toma conta da paisagem. Os barrancos ficaram submersos. Não existe mais a corrida pelo ouro, mas essa região continua rica em minérios. Uma associação de 38 mil garimpeiros hoje é dona desse lugar.

Idelzuite agora trabalha como enfermeira. Mas nunca esqueceu da vida no garimpo. “Eu vi trabalho, eu vi escravidão, eu vi brigas”, contou.

E muitas tragédias. Cerca de 50 pessoas morriam por ano nas avalanches de terra.

“Eu cheguei a ver um garimpeiro soterrado com as mãos pra cima, e ele morreu. Foi uma cena assim que eu nunca vou esquecer é como se eu tivesse vendo sempre”, disse Idelzuite.

“E a senhora nunca teve medo disso acontecer com a senhora quando a senhora estava lá?”, questionou a repórter.

“Você teme, todo mundo teme a morte, mas aquele medo, medo de morrer nunca tive”, respondeu Idelzuite.

A última pepita de ouro foi retirada de lá em 1992. A partir daí os trabalhadores passaram a viver de bicos. E até hoje é assim. A famosa vila de Serra Pelada ainda existe. São cerca de sete mil moradores em centenas de barracos, quase todos de madeira. As ruas não têm calçamento. Não existe rede pública de iluminação. A luz é clandestina. A água não recebe tratamento.

O fundo do lago, a mais de cem metros de profundidade, está cheio de mercúrio, que era usado para garimpar o ouro. A paisagem é bonita, mas ninguém pode tomar banho ou beber água. Foi a herança que ficou para os moradores da vila de serra pelada.

“Essa água não serve pra nada. Essa água pra gente, pelo nosso entendimento, ela está poluída, jamais, a gente sequer põe os pés dentro”, afirmou uma mulher.

De olho nos negócios, os 38 mil garimpeiros fecharam um acordo inédito na história. Se associaram a uma empresa multinacional que ganhou o direito de explorar toda essa área. No lugar das antigas bateias, máquinas. A tecnologia está por toda parte.

Os primeiros levantamentos feitos pela empresa canadense no terreno indicaram a presença de, pelo menos, 50 toneladas de metal precioso, ouro, platina, paládio. A "Nova Serra Pelada", como foi batizada, deve entrar em operação no segundo semestre de 2013.

“Hoje seria difícil garimpar do jeito que era garimpado há 30 anos atrás?”, perguntou a repórter.

Não tem como, não tem como porque o garimpo ficou muito fundo, não tem como não ser mecanizado. Manual acredito que não. Tem que ter máquina”, respondeu Zaqueu.

A retomada da produção em Serra Pelada, agora mecanizada, é a esperança de uma vida mais tranquila financeiramente pra esse povo.

“A senhora acha que serra pelada foi um lugar que fez bem ou fez mal para as pessoas?”, questionou Daniela Assayag.

“Ela fez o bem porque foi uma descoberta, todo mundo trabalhou, quem pegou ouro pegou, quem não pegou viveu, viu a história. Isso o bem. O mal foi porque muitas famílias, muitas mulheres ficaram viúvas, os esposos vinham pra trabalhar aqui e nunca mais retornavam então ficou muita viúva por causa de serra pelada”, disse Idelzuite.

Hoje, esposa e mãe de 4 filhos, Idelzuite ainda se emociona ao falar de Serra Pelada. Com orgulho guarda, numa caixinha, em casa, os documentos da época de garimpeira.


“Eu não fiquei rica, mas vivi a história. Pra mim é a melhor lição de vida”, completou Idelzuite.
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