José Mariano dos Santos Garimpeiro
Jazida Serra Pelada De madrugada a temperatura cai bastante e ninguém consegue dormir sem cobertor. Uma espessa neblina encobre o garimpo quando esta estranha cidade no meio da selva, que já chegou a ter mais de 80 mil habitantes, começa a acordar para mais uma jornada. É sábado, um dia como outro qualquer em Serra pelada, onde o fim de semana só começa ao meio-dia de domingo.

O barulho das britadeiras moendo o cascalho nos barrancos; procissão de vultos silenciosos caminhando para a cava; a rotina recomeçava. O zunido dos pernilongos ainda está nos ouvidos, suplício apenas para os forasteiros.

“Como é que se chama pernilongo aqui?”
“Carapanã que o senhor fala? Ah, não precisa chamar não. É só deixar a porta aberta que eles vêm sozinhos...”

Apesar das precaríssimas condições de vida e trabalho no garimpo, o bom humor predomina, e é raro ouvir alguém se queixar da vida. Explica-se: para a maioria deles, a vida lá fora era ainda mais dura, e sem qualquer perspectiva de melhora. Aqui todos têm trabalho e comida, com direito a sonhar.
Blefados ou bamburrados na loteria do garimpo

Quatro homens do barranco 26 jogam dominó. Libânio, Antônio, Vitorino e Francisco vieram do Maranhão há menos de um ano. Três eram estudantes, um trabalhava na roça. São meias-praças, vão ter direito a 5% do ouro que for encontrado no barranco – o pedaço que lhes cabe no imenso tabuleiro esculpido numa enorme cratera de 24.615 metros quadrados, com 1.200 metros de diâmetro e mais de 100 metros de profundidade – mas até agora não encontraram nada. O dono do barranco mora em Belém. Só vem de vez em quando para prover a turma de comida e óleo para a britadeira, comprar alguma ferramenta que falta. Por que eles estão aqui?

“É mais a necessidade de aventurar alguma coisa”.

Eles agora estão jogando dominó em pleno dia de trabalho porque, quando chegam as chuvas, o garimpo começa a ser desativado. Apenas uma pequena parte da cava, não mais do que 10% ainda tem condições de continuar funcionando. Dentro de poucos dias, eles irão embora para outro garimpo, o de Cumaru.

“A gente chega lá e vai caçar patrão. Tem muito serviço lá”, explicava Libânio.



O maior garimpo a céu aberto do mundo

A cada dia, lotando caminhões que ligam esta ferida aberta na selva, 130 quilômetros a Sudoeste de Marabá, a 13 localidades do Pará, Maranhão e Goiás, milhares de paus-de-arara do ouro vão deixando para trás, em meio à poeira, o maior garimpo a céu aberto do mundo.

São os blefados, que deixam para trás também sua saúde, seus sonhos de riqueza desfeitos. Nos teco-tecos e bimotores, que fazem a ponte aérea Marabá – serra Pelada, vão embora também os bamburrados, aqueles 2% de garimpeiros que ficam com 72% da renda de todo o ouro do garimpo descoberto no início dos anos 80 e festejado como o tesouro que resolveria os problemas do Brasil.

Homens enlameados até os cabelos, caminhando como formigas com sacos de cascalho nas costas e cavando como tatus, levantando poeira ou barco dentro de um grande buraco, o garimpo – esta é a paisagem humana que encontrei quando vim aqui a primeira vez, está fazendo quase oito anos. Naquele tempo, quase nenhum piloto se arriscava a ir para lá. Só os mais malucos. Motivos não faltavam, mesmo para estes suicidas pilotos de garimpo que topam qualquer serviço.

A pista improvisada no cabo de enxada era apenas uma tênue nesga de terra rasgada no meio da mata, quase sempre escondida pela chuva, a neblina ou a poeira. Cercada por morros, era também a principal e única rua do garimpo, vivia coalhada de gente. Descer lá sem problemas era como acertar sozinho na loto.

A imagem não é gratuita: Serra pelada sempre foi, desde o começo, um jogo, um contrato de altíssimo risco. Ali, a distância entre a riqueza e a miséria, a vida e a morte, a glória e o ridículo, o céu e a terra sempre foi muito pequena, nem dá para notar lá do alto. Estávamos em serra Norte, onde mais tarde viria nascer a República dos Carajás. O piloto não inspirava nenhuma confiança. Era um refugiado angolano que aceitava qualquer vôo e para ele tudo era lucro. Não sei o que me dava mais medo, se era o piloto ou o aviãozinho dele, todo remendado.

Meia hora depois, só céu e mata, quando já deveríamos estar chegando a Serra Pelada, o angolado começou a mostrar sinais de preocupação. Constatou simplesmente que estava perdido, a rota não era aquela. Tenta contatar outro avião pelo rádio, e nada. Para encurtar a agonia, depois de mais meia hora o homem conseguiu descobrir onde estava e gloriosamente vislumbramos o garimpo. Pela primeira vez na vida, e por pouco a última, ouvi um avião buzinando para pousar. O pessoal não saiu da pista, o angolano teve que dar uma arremetida toda torta e quase batemos num carro.

Quem mandava ali por todos os seus prepostos à paisana ou fardados era o Exército. Mais precisamente, o garimpo era comandado pelo major Curió (anos mais tarde, ele se elegeria deputado federal com os votos dos garimpeiros). Em poucas semanas, aquele pedaço de fim de mundo perdido na selva amazônica seria transformado num retrato três por quatro em branco e preto deste lugar do mundo chamado Brasil.

Quase meio milênio após a chegada dos descobridores portugueses, repetiam-se as mesmas cenas de devastação, depredação das riquezas naturais e humanas, o vale tudo na terra de ninguém. E reuniam-se novamente em busca do tesouro os senhores, os feitores e os escravos, aqui chamados de formigas, os homens expulsos de outras terras que chegaram ao fim da linha e tentavam sobreviver carregando sacos de terra molhada do garimpo até as máquinas dos seus proprietários, onde os sonhos passariam pela peneira.

Mas muita água correria pelo leito natural do igarapé da grota Rica, onde o filho de um certo Zezinho, protegido de Genésio Ferreira da silva, o antigo dono das terras da Serra Pelada, encontrou alguma coisa brilhando junto a uma bica d’água, em fevereiro de 1980, até se chegar aos confrontos entre os garimpeiros e a Polícia Militar do Pará sobre a ponte de Marabá, no final de 1987.

Da constatação de que se tratava de ouro o que o menino viu à invasão da fazenda, foi como um raio. Correm na Serra Pelada também outras lendas e versões. Uma delas dá conta de que o próprio Genésio encontrou ouro ao cavar um buraco para fazer cerca. Há quem garanta que quem encontrou ouro primeiro foi um tal de Pedrão, que limpava juquira (roçava o mato) para Genésio.



A lei do garimpo é desafiar a sorte

José Mariano dos Santos é um dos milhares aventureiros da Serra Pelada. Fiquei sabendo de sua história aos poucos, até ele ganhar a confiança da minha amizade. Na época, quando Marabá naufragou, levada nas enchentes, o garimpeiro José, o Índio, viu na televisão a notícia de que acharam o ouro em Serra Pelada. Pegou uma carona de caminhão até o KM 16 da estrada PA-150, que liga Marabá a Serra dos Carajás. Ali hoje é o entroncamento da estrada de terra que liga a rodovia asfaltada a Serra pelada, mas naquele tempo só havia um jeito: enfrentar a selva.

Índio já bamburrou e ficou blefado várias vezes, na gangorra das riquezas e misérias de Serra Pelada. Apesar de tudo, não se arrepende de ter largado a família na Baixada Maranhanse, onde trabalhava de terça na terra dos outros, ou seja, entregava ao dono da fazenda um terço do que produzia sua roça de arroz, milho, feijão, mandioca, o de sempre.

“A Serra para mim foi uma mãe” ia sempre me repetindo, sem ninguém perguntar.

Com outros trinta homens e uma máquina de lavar cascalho na cabeça, encarou o garimpo do ouro prometido, caminhando das seis da manhã às seis da tarde. Depois de passar dois dias com fome, vendeu a muda de roupa para conseguir comida, ajeitou-se num pedacinho de barranco da grota Rica e dali pára cá, “animei com o negócio, já tava lá dentro mesmo... era obrigado a passar fome, o que eu ia fazer? Não ia voltar”.



Fortuna e miséria na trilha do ouro

Como bichos, comendo e defecando no mesmo pedaço de terra, milhares de homens como Índio lançavam-se na grande aventura de ficarem ricos da noite para o dia. Para falar bem a verdade, a grande maioria nem sonhava tão alto, estava ali apenas para tentar sobreviver, longe da família e de qualquer resquício de vida, digamos, civilizada. Eram quase todos antigos lavradores, posseiros, homens que foram sucessivamente sendo expulsos das suas terras no Maranhão, no Paraná, em Minas, no Pará.

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